No mês passado estivemos na Chapada dos Veadeiros. Nossa primeira viagem a uma das Chapadas Brasileiras. Já rodamos muito pelo Brasil, mas as Chapadas eram uma lacuna no nosso repertório. Sempre protelamos essa viagem porque trilha não é exatamente a nossa praia. Pra ser sincero, tenho pouca lembrança de trilhas que fizemos juntos. Ainda no começo da nossa relação saímos um dia para passear na Lagoa Rodrigo de Freitas. Chegando lá, propus que subíssemos a trilha do Parque da Catacumba. Há uma vista bonita lá de cima. E na minha memória era uma trilha tranquila de fazer. De fato é. O trajeto é curto, bem marcado. Porém é morro acima. A Claudia odiou, principalmente porque não estávamos preparados pra caminhada. Nem água levamos. Bom, isso foi lá por volta de 2006. Mas parece que o aprendizado não ficou registrado, pois acabamos cometendo o mesmo erro nessa viagem. Tá rindo, né? Então chega mais que vamos contar esse história aqui embaixo.

Uma casa no (Alto) Paraíso

Chegar em Veadeiros é bem fácil. De carro à partir de Brasília são cerca de 2h30 por estradas bem sinalizadas, com pouco movimento. Para quem planeja ir de ônibus, a viação Real Expresso faz o trajeto ida e volta. O caminho é na maior parte entediante, não há muito o que ver. A voz mecânica sem emoção do waze antecipava isso: “siga em frente (pausa) por (pausa) cento (pausa) e (pausa) quarenta quilômetros”. O jeito é descolar uma playlist animada ou ir batendo papo mesmo pro tempo passar mais rápido.

O Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros abrange 5 cidades se não me engano, porém as principais opções de hospedagem costumam ficar situadas no município de Alto Paraíso de Goiás e a vila de São Jorge. A Claudia descolou uma casa muito maneira por um precinho em conta e acabamos optando por ficar em Alto Paraíso, cuja infra parecia ser melhor.

Bom, melhor era. Só não é assim uma Brastemp né? As ruas mais centrais são asfaltadas porém tem um modo geral parece uma cidade pobre ajeitadinha. Na rua principal tinha cerca de uns 20 restaurantes, mais ou menos…razoável né? Imagina se só tivesse uma ou duas opções? E, pior ainda: e se fosse ruim? Felizmente não foi o caso :)

Mas numa próxima gostaria de ficar hospedado em São Jorge. A vilazinha, embora bem mais simples, pareceu-me mais simpática e autêntica. Com suas ruazinhas de terra, onde o vento levanta poeira facilmente e cada esquina para um cenário de filme western. Há uma certa mística no lugar. Alguns atribuem ao fato da cidade estar na mesma latitude que Macchu Picchu. Outros dizem que alienígenas já pousaram na região. Mas o certo mesmo é encontrar uma alta concentração de bicho-grilo. Pode reparar: incenso e maconha nunca ficam em falta por ali.

Mas afinal que diabos é uma Chapada?

O horizonte do Planalto Central engana. Parece que o tempo todo estamos numa planície sem fim. Apenas quando nos aproximamos de Alto Paraíso é que o cenário começa a mudar com o surgimento alguns morros. Fiquei reparando aquilo um tempão. Queria entender qual diferença entre uma cadeia montanhosa e a Chapada. A olho nu, não dava pra distinguir. Basicamente, isto é um problema de escala. É preciso uma visão aérea pra entender a magnitude do espaço. Ainda bem que na entrada do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros havia uma maquete.

A geografia define chapada como um vasto terreno de superfície plana e vegetação rasteira dentro de uma região serrana. A altitude deve estar acima dos 600m.  Outra característica marcante são as bordas destas regiões que costumam ser abruptas com paredões verticais, lembrando o formato de uma mesa. Aqui no Brasil, além de Veadeiros temos ainda a Chapada dos Guimarães (MT), Diamantina (BA), Parecis (MT), Apodi (RN), Araripe (CE), Guarani (SP) e, ufa!, a Chapada das Mesas (MA). Impressionante como a lista de lugares pra visitar no Brasil só aumenta…

Chapa quente na Chapada

Calhou de escolhermos, simplesmente, o dia mais seco do ano pra visitar Veadeiros. Com uma temperatura oficial na casa dos 35ºC e a umidade no ar despencando pra casa dos 11%, era uma combinação mortal de clima quente e seco. Coitado dos pulmões que sofreram pra encontrar oxigênio naquela situação. O nariz rachava, a pele esturricava e não havia água que satisfizesse o corpo.

Pois bem, nessa conjuntura chegamos a entrada do Parque Nacional de Veadeiros por volta das 10h da manhã. Tínhamos dois pacotinhos de biscoito para cinco pessoas. Cada um carregava ainda 500ml de água. Já deu pra sentir o cheiro de vai dar m… né?

Optamos pela trilha que levava até os cânions e as cachoeiras Carioquinhas. Era uma caminhada de 10km (ida e volta). Pelos meus cálculos mentais demoraríamos aproximadamente 1h30 por trecho. Na entrada do parque um infográfico mostrava a altimetria do percurso. No primeiro terço desceríamos cerca de 200m, depois o trajeto era basicamente plano.

A vegetação rasteira cobria a maior parte do caminho, com pouca diferenciação. A trilha é super bem marcada, basta ter fôlego. Já quase no fim da trilha há uma bifurcação. A direita cânions, à esquerda Carioquinhas.

Viramos à direita. Finalmente depois de uma hora e meia sofrendo embaixo do sol, com a água quase acabando, chegamos aos Cânions. Hora de dar aquele mergulho de redenção. Splash!

Nos jogamos de cabeça no Rio Preto. Foi tão refrescante que piscamos e uma hora se passou. Hora de seguir viagem. Levantamos acampamento e seguimos mais uns 15 minutos até a Cachoeira das Carioquinhas. A fome começou a bater e eu só pensava que o almoço ainda estava muito distante. No tempo e no espaço. Era preciso encarar os 5km do trajeto de volta. Outra hora e meia de caminhada no período mais quente do dia. Enchemos as garrafinhas com água do rio que, felizmente, era potável. #Partiu

O caminho de volta era sem fim. Para piorar, o trecho final do trajeto seria um aclive de 200m. Na metade do trajeto, o grupo começou a dar sinais de desgaste e a água tava caminhando pro fim. Aquela sensação de calor demoníaca. A secura completamente instalada no corpo. Tava tenso! A Claudia quase não aguentou. Ficamos para trás do nosso grupo que felizmente contava com dois anjos da guarda. Fizeram a caridade de ir na frente, encheram duas garrafinhas de água e voltaram pra nos socorrer.

Memória curta é uma desgraça mesmo. Mais uma vez caímos no mesmo erro de começar uma trilha despreparados. E ainda demos azar de pegar o dia mais quente do ano. Só espero que não voltar a escrever outro post contando o mesmo mole né?

Escrito por Claudio Lemos