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Os gigantes japoneses

Na nossa segunda noite em Tokyo, ainda sofrendo um pouco do jet lag, por volta das 4 ou 5 da manhã estava conversando no whatsapp com um amigo que me disse que gostaria de ver uma luta de sumô. Sumô…aquilo ficou ecoando na cabeça. Durante o micro-tempo que tivemos para preparar nossa viagem pro Japão confesso que em nenhum momento sequer fiz essa associação entre Japão e o sumô. Esqueci completamente que o esporte existia. Até aquela conversa no whatsapp. Despretensiosamente, joguei no google “sumô” para ver no que dava.

O campeonato de sumô é dividido em seis etapas, com interavalo bimestral, ao longo do ano. Cada etapa dura 14 dias e acontece numa cidade diferente do país. Nossa estadia pelo Japão coincidiria com a segunda etapa do ano que seria realizada em Osaka.  O único porém é que Osaka não estava nos nossos planos de viagem pelo Japão. Mas ao mesmo tempo, assistir o campeonato de sumô era uma experiência interessante demais para deixar de lado…

 

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A entrada do estádio  estava tranquila quando chegamos por volta de 11h30…

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mas quando saímos perto das 14h30 estava lotada de fãs e imprensa.

Osaka, a terceira maior cidade do Japão, fica pertinho de Kyoto cerca de 50min de trem e poderíamos utilizar nosso JR Rail Pass para fazer essa viagem, sem nenhum custo adicional. A questão era apenas que teríamos que “sacrificar” um dia de viagem em outro lugar (no fim das contas cortamos Nara do nosso roteiro). Era possível comprar ingressos pela internet e retirar no local. Os preços começavam em USD 20,00 embora fosse complicado achar ingressos nesse valor, acabou que pagamos USD36,00 já incluindo as taxas de conveniência. Havia lido no site que as lutas começavam as oito e meia. Pensei comigo, “lá pelas dez, dez e meia já deve ter acabado e dá tempo de pegar o trem de volta”. Mas quando recebi o voucher por email é que entendi que começava as oito e meia DA MANHÃ!

 

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A retirada dos ingressos no autoatendimento no estádio

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Pegamos um lugar longe mas a vista era tranquila e como ainda estava cedo, o estádio estava vazio.

 

Fui descobrir que o campeonato de sumô começa cedo e vai até o começo da noite. Embora não seja possível determinar exatamente o horário de término (pois as lutas não tem tempo pré-definido) pois existem seis divisões e inúmeras lutas em cada divisão. Claro que as lutas mais cedo são as menos importantes. Tipo a série C do Brasileirão ou os grupos de acesso do Carnaval. Quanto mais nobre a divisão, mais tarde serão as lutas. Então desencanamos de chegar mega-cedo, pois haveria luta o dia inteiro. E  já que iríamos a Osaka, porque não turistar um pouco mais né? Saímos de Kyoto perto de 10h da manhã em direção a Namba Station em Osaka, que segundo os cálculos do google maps fica a menos de 5min a pé do Osaka Prefectural Gymnasium aonde seria realizado a etapa do campeonato de sumo em Osaka. Só que a estação de Namba era gigante e contava com quase doze saídas diferentes. Ao menos nos metrôs, há informações em inglês. Achamos a saída certa e com algum bate-cabeça conseguimos chegar a arena. Coletamos nossos ingressos e fomos direcionados aos nossos assentos na classe C da arquibancada. O lugar embora longe não era ruim, tínhamos uma boa visão dohyo, o ringue do sumo. E dava ainda para circular pelas passarelas pra fazer fotos.

Lá embaixo no ringue, a luta com altos níveis de IMC corria solta. Era o encontro das massas, literalmente. Os lutadores de sumô, contrariando a estatística japonesa, são altos. Bem altos! Ao lado dos japoneses então parecem gigantes! Acho que nenhum dos lutadores que vimos tinha menos que 1,85m. E além disso ostentavam aquela circunferência abdominal característica dos lutadores tornando o contraste ainda mais intenso. Mas contrário ao que poderíamos pensar, não há exatamente uma separação por faixa de peso como é comum em outras lutas (boxe, judô, MMA, etc). Assistimos a uma luta que seria claramente desigual em termos de peso, embora o mais magrinho tenha vencido. Vai entender…

Há todo um mise-en-scene que não entendemos também. No início de cada luta, há um host vestido com roupas típicas que declama algo que está escrito num leque que ele segura em suas mãos. Depois dele, outro host vem para chamar os lutadores ao ringue e fica por ali também exercendo um papel de árbitro, mas os juízes de verdade estão ao redor do ringue.  São quatro juízes, um para cada aresta do ringue, que ficam sentados bem próximos para avaliar o embate. Raramente, eles são necessários. Mas numa das lutas que vimos aonde ficou dúvida sobre quem sofreu o golpe decisivo, os juízes foram convocados ao centro do ringue para deliberar. A luta acabou sendo invalidada e uma revanche teve início imediatamente.

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O host declama algo escrito no leque e chama os lutadores

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que se apresentam antes do começo da luta

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Esticam as pernas lateralmente e dão uma pisada forte no chão

 

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Pronto pra batalha!

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Fight!

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As regras do sumô são extremamente simples: basicamente não é permitido colocar nenhuma parte do corpo no chão (exceto os pés) e os lutadores devem permanecer dentro do ringue. Portanto perde quem for jogado para fora ou tocar o chão com qualquer parte do corpo. Por isso as lutas costumam ser tão rápidas. Os confrontos são regidos muito mais pela astúcia do que pela força. É uma questão de saber jogar a força do oponente contra ele mesmo. Muitos lutadores mais afoitos para empurrar o oponente para fora, acabavam caindo no chão quando seu adversário o deixava sem ponto de apoio. O que em outras palavras quer dizer que qualquer luta era uma videocassetada em potencial. Mas o fato do sumô ser uma luta limpa foi o que mais me agradou no esporte. Eu não sou nenhum pouco fã de MMA justamente por achar que há violência e sangue demais no ringue, mas o sumô passa longe disso. Ficamos vidrados não só nas lutas mas ainda na comoção que ele causa nos japoneses.

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Olha lá a videocassetada

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Inicialmente nosso plano era ficar no estádio por uma hora, mas acabou que ficamos quase  três horas lá. Perdemos até a hora do almoço… E olha que era possível sair e retornar a arena (apenas uma vez) portando seu ingresso. Provavelmente para que os espectadores possam ir comer alguma coisa nos arredores. Quando já tínhamos visto o suficiente de lutas, resolvemos sair da arena mas antes falei com a Claudia para tentarmos chegar mais perto dos lutadores. Havia um corredor por onde eles entravam e saiam na arena que pela planta do prédio deveria ser de fácil acesso. Quando chegamos lá realmente pudemos avistar de perto todos os lutadores passando por ali. Pois o caminho que os lutadores faziam do vestiário até a arena cruzava uma área comum de circulação do prédio. Havia alguma aglomeração de japoneses por ali na expectativa de ver seus ídolos passando e poder tirar uma foto. Agora realmente a educação japonesa faz toda diferença. Se aqui no Brasil (e em várias outras partes do mundo) é necessario todo um aparato de segurança e grades para contenção do público. No Japão simplesmente havia uma fita zebrada colada no chão e todos os japoneses se mantinham atrás dela com suas cameras fotográficas. No máximo aplaudiam quando viam um dos seus ídolos passarem. Ninguem se metia no caminho dos lutadores, ou pulava em cima deles para pedir autógrafo nem nada…Impressionante.

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Vimos vários lutadores na passagem entre o vestiário e a arena

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Os japoneses são tão ordeiros. Basta a fita zebrada no chão que eles ficam atrás sem atrapalhar ninguém. Impossível imaginar isso no Brasil aqui sem um gradil ou seguranças para contenção.

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Kotooshu, um búlgaro que atua na liga do sumô japonês. Pelo que li ele é bem famoso por lá. Aliás descobri que tem até um brasileiro lutando no campeonato.

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Aquecimento no backstage

Aliás o status dos lutadores é algo digno de nota, Os lutadores entram pela entrada principal do prédio e, de novo, não é necessário a presença de grades ou seguranças. Há um corredor delimitado por alguns cones, e os lutadores vem passando por ali enquanto as margens ficam vários japoneses torcendo por seus ídolos. No foyer havia uma fila imensa de japoneses para tirar foto e pegar um autógrafo de alguém que imagino ter sido um lutador bem importante no passado recente do universo desse esporte. E do lado de fora do prédio era possível ver uma grande presença da imprensa cobrindo a chegada dos lutadores para o campeonato.

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Uma mega fila para tirar foto com um ídolo do esporte…

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que não faço ideia de quem seja.

 

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Mas é esse aí da foto (a esquerda de quimono roxo).

 

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Os lutadores entram pela mesma entrada principal que dá acesso ao público mas ninguem interfere o acesso.

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Do lado de fora, já uma multidão aguardando para ver seus lutadores chegarem.

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Já estávamos roxo de fome e satisfeitos com a nossa incursão do universo do sumô, aí rumamos em direção a Rua Dotonbori, mas isso já é papo para outro post porque este já está bem  longo.

 

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UPDATE

Ontem recebi esse video de um programa sobre sumô que foi ao ar na SportTV. É super completo e pra quem quiser saber um pouco mais sobre o esporte vale a pena conferir, o link segue abaixo:
http://sportv.globo.com/videos/sportv-reporter/t/ultimos/v/sportv-reporter-sumo-a-leveza-dos-gigantes-04052014/3323909/

 

 

Escrito por Claudio Lemos