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aplauso barco

Minha vó já dizia: aplaude besta que hoje é sexta.

Esse mini vídeo acima da gente aplaudindo no barco é apenas o começo de uma história muito tensa que aconteceu conosco no último natal lá em San Andres. Preparados? Pega o colete e sobe aí.

Chegamos San Andres logo antes do natal. A trip para Colombia foi dividida em duas etapas. Primeiro, um relax de quatro dias nas águas caribenhas de San Andres e depois outros cinco dias dedicados a Cartagena, a cidade que Gabriel García Marquez elegeu para viver na pele todo realismo mágico dos seus livros.

Pois bem, chegamos a San Andres sem muita pressa para cumprir qualquer tipo de lista do que fazer. Afinal, ilha no caribe igual a praia, certo? Se a programação fosse apenas enfiar o chinelo no pé e torrar um pouco no sol já seria lindo. Havia lido algumas coisas sobre o ojo soprador, Rocky Cay (leia-se róquiquí), Johny Cay (djoniquí), o Aquário e o carrinho de golfe, mas sinceramente tudo me pareceu ser um mais do mesmo de destinos praianos. Não que estejamos desdenhando, pelo contrário um relax é muito bem vindo!

Quando se escolhe uma ilha no caribe de antemão você já sabe que vai encontrar uma oferta de passeios de barco, opções de mergulho, alguma-coisa-surf (kitesurf, windsurf, surfsurf, etc), alguma-coisa-sail, jet ski e afins. Então não quis ficar pesquisando muito pra evitar cair na tentação de criar qualquer tipo de roteiro. Depois de um ano cheio de toda a sorte de eventos, pessoalmente e profissionalmente falando, a perspectiva de esticar as canelas numa espreguiçadeira em frente ao mar azul turquesa era tudo que a gente queria mesmo.

voando sobre san andres

San Andres e a promessa de dias de perna pro par, só no relax.

 

Mas queimar a língua parece ser um esporte sem fim na vida né? Então logo no primeiro dia que nosso grupo (viajamos com mais um casal) saiu pra explorar San Andres acabamos selando nosso destino com uma programação pro dia seguinte.

Estávamos caminhando em direção a única praia que fica no centro da cidade, perto do vuco-vuco do comércio e da maior parte dos albergues e hotéis de San Andrés. A faixa de areia ali é estreita e por conta dessa proximidade ao centro da cidade, a farofa é garantida. É até difícil aproveitar a praia ali. E não vale a pena, pois a poucos minutos dali existem outras praias bem mais interessantes. Não sabíamos disso ainda. Depois de devidamente instalados no apê que fechamos na booking.com, saímos para bater perna e dar um mergulho na praia mais perto. Estávamos caminhando em frente a marina aonde saem os passeios de barco quando o Luís um destes “agentes turísticos” veio nos abordar. Eu, com minha preguiça-master de lidar com transeuntes vendedores continuei andando, sem dar atenção, mas a ala feminina resolveu dar trela. E começou a ladainha da venda. Estava programado para o dia seguinte uma saída de barco para Cayo Bolívar. O dia em questão, só a título de informação, era o natal.

praia centro san andres

A praia do centro da cidade é uma das mais sem graças de San Andres

Os passeios para Cayo Bolívar não saem todo dia e ainda estão sujeitos aos caprichos meteorológicos. Então não sabíamos se teríamos outra oportunidade nessa viagem de ir até lá. Fechamos com o Luís que anotou nossos nomes num pedaço qualquer de papel e nos disse que esperássemos na portaria do nosso apartamento no dia seguinte as 7h30 da manhã que haveria um transfer para nos buscar.

A CONFUSÃO DO TRANSFER

7h30. APARTAMENTO VONBLOM. Na madrugada manhã seguinte estávamos lá, grupo coeso, esperando godot a van. 7h40 e nada…7h50 nossos amigos decidem ir até a marina a pé enquanto nós ficamos ali esperando o transfer. Combinamos o trajeto que eles percorreriam para não evitar desencontros. 8h00 e nada…Finalmente 8h15 surge uma van caquética para nos buscar. Explicamos a situação que havia outro casal conosco e falamos ao motorista que fizessem o caminho combinado. Fomos até a marina e nada dos nossos amigos.

8h00. MARINA. Nossos amigos chegam na marina aonda encontramos com o Luis no dia anterior , mas ela estava fechada.  Rapidamente surge, do nada, um outro “agente turístico” que diz que o Luis não virá naquele dia, mas que ele está vendendo o passeio de Cayo Bolivar e que ainda há vagas. Nossos amigos explicam a situação, a combinação feita com o Luís no dia anterior, que tem interessem em fazer o passeio caso haja vaga para nós quatro. De olho na comissão, o “agente turístico” – vamos chamá-lo de Paco para facilitar o storytelling aqui -, diz que sem problemas e manda um carro para nos buscar.

Esperando na marina errada...

Esperando na marina errada…

8h16. APARTAMENTO VONBLOM. O carro chega no apartamento mas não nos encontra, pois no momento estávamos no caminho até marina certa daonde sairia o passeio. Chegamos lá pelo trajeto previamente combinado e nada dos nossos amigos. Peço ao motora que volte até nosso apê pois nossos amigos devem ter voltado para lá.

8h40. NA MARINA CORRETA. Depois de um tempo brincando de gato e rato reencontramos nossos amigos com o Paco a tiracolo e fomos em direção aos barcos quando para nossa surpresa quem está lá? O Luís! Aquele mesmo que segundo o Paco não iria trabalhar naquele dia.

Damos aquela entortada de olhar pro Paco que a partir deste momento, pego na mentira de calça curta começa vociferar que teríamos de pagar o transfer até a marina. Nós ainda sem compreender direito a situação, olhamos pro Luís. Não havia sido prometido um transfer? Pagar o quê a mais? Vocês que são san-andresinos (?) que se entendam…O Luís ainda chegou a argumentar que o transfer havia passado lá e não havia ninguém, o que já deu uma putice interna mas seguramos a onda pra não criar auê antes do passeios começar. Enfaticamente dissemos ao Paco que se entendesse com o Luís. Só então caiu a ficha de eles não eram da mesma empresa, alias não sei até agora qual é a empresa por trás do passeio…Só sei que eles devem comissionar os moradores que resolvem captam os clientes de alguma maneira e por isso fica aquela disputa chata de vendedores empurrando toda sorte de tourist trap disponível a mão.

– Señor, hay que cancelar.

8h50. DECK DA MARINA CORRETA. Paco e Luis ainda batendo boca por ali, nós entramos no barco “El Poder de la envidia”. Era um barco que perfeitamente poderia estar na amazônia. Uma voadeirazinha toda no casco de fibra, sem cobertura, com assentos sem encosto e equipadas com 2 motores de lancha que acomodam vinte pessoas além do capitão. A lancha já estava lotada e só havia os lugares mais a frente. Sentamos ali, ainda vendo o Paco e o Luis debatendo entre si quando se aproxima uma outra “agente turística” que parecia ser oficial daquela empresa. E insiste que temos que cancelar.
– Cancelar? Tá maluca! Não, nós vamos fazer o passeio.
– Señor, hay que cancelar.
– No, queremos hacer el paseo hasta Cayo Bolívar
– Tiene esto? – e me mostra o bilhete.
– No tiengo
– Entonces, esto hay que cancelar.

Depois de um tempo nessa conversa de maluco, virei pra ela e perguntei se cancelar era o mesmo que efetuar o pagamento. Ela finalmente entende nossa confusão, pagamos o passeio e quase que ao mesmo tempo a lancha parte da marina.

A CAMINHO DE CAYO BOLÍVAR

lancha cayo

A lancha lazarenta que nos levou até Cayo Bolívar

8h55. BAIA DE SAN ANDRES. O capitão faz uma parada rápida nas águas calmas da baía e explica que serão 45min de mar aberto até chegar a Cayo Bolívar. Entrega coletes de segurança extras para colocarmos em cima do assento, para ter um mínimo de acolchoamento já que o trajeto será um pouco batido. Segundo a capitania informou, o mar estaria mexido naquele dia. Ele ainda dá um último aviso que infelizmente por conta do barulho do motor não conseguimos escutar. Era um informe para quem quisesse guardar algo a seco no trajeto que entregasse agora os pertences para que fossem armazenados apropriadamente. Claro que deu merda, né? Vai vendo…

Com a confusão inicial do transfer que chega-ou-não-chega aliado a celeuma (adoro essa palavra) Paco & Luís e por último o lost in translation do cancelamento/pagamento, acabou que entramos completamente de gaiato no navio. Perdemos o briefing que foi feito na marina quando reuniram os passageiros. Não ficamos sabendo, até estar em alto-mar, que:
1) naquele dia a previsão era de ondas de até 5 metros,
2) que o passeio não é aconselhável para crianças, grávidas e pessoas com problemas de coluna.

Informação relevantes, no mínimo.

japa marcada

A japa voadora

9h00. MAR ABERTO. Mal o barco entrou no mar aberto percebemos a furada que fomos nos meter. Tão logo encaramos a primeira onda mais alta, a japinha magrinha que estava na minha frente foi ejetada do assento, deu um carpado no ar e caiu de bunda no vão entre duas fileiras de assentos. O capitão gritou para que ela retornasse ao lugar. E ela insistiu um tempo dizendo que preferia ir ali mesmo embaixo, mas óbvio que ele não permitiu. Numa atitude um tanto quanto arriscada, ele parou o barco em meio as ondas e ordenou as pessoas que pulassem um banco para trás de modo que toda a tripulação ficasse do meio para trás da lancha. O barco balançava horrores devido as ondas, enquanto a tripulação se ajeitava nos bancos. Eram fileiras que caberiam quatro confortáveis, mas por conta da situação colocaram cinco pessoas espremidas lado a lado, de braços dados, segurando-se uns aos outros. Eu e o namorado da japa voadora sobramos na fila dianteira.

O capitão acelerou o motor de novo e recomeçamos o bate-estaca marítimo. A dinâmica da lancha é essa. Ela precisa estar em velocidade constante, para ficar na linha d’água e não virar. Quando disse que a manobra do capitão foi arriscada, tava falando sério mesmo! Poderíamos ter virado em alto mar. A lancha não tem estabilidade para aguentar aquelas ondas estando parada. Ela usa a velocidade e vai furando  de frente ou “surfando” diagonalmente as ondas. O problema é que o trajeto de ida para Cayo Bolivar é contra a maré, portanto furando as ondas. Parece uma montanha russa. Só que sem segurança alguma. E devido a aerodinâmica do barco, os lugares mais a frente da lancha são os mais instáveis que mais sofrem com o efeito gangorra.

Não havia aonde se segurar, então me aproximei da lateral do barco que me agarrei como pude na borda do barco. O japa do meu lado, sem noção coitado, em vez de fazer o mesmo na outra lateral, simplesmente ficou ali catata no meio da fileira. Veio uma onda mais forte e ele quase teve o mesmo destino que sua namorada. Puxei para ele para perto e enlacei seu braço.
Já estava todo encharcado quando olhei para minha bolsa no chão toda molhada. Dentro da bolsa estavam nossas nadadeiras, óculos de mergulho, snorkel e…meu iphone. Não deu nem para pensar nele, pois logo veio outra onda. E mais água na cara. Eu com um braço agarrado na lateral e outro no japa do meu lado que a cada onda mais forte ainda me dava cotoveladas involuntárias por conta do sacolejo do barco. Situação escrota!

9h30. AINDA MAR ABERTO. Já havia perdido noção de quantas ondas havíamos furado e quanta porrada já tinha tomado. Eu curvava meu corpo para frente e segurava com todas as forças na lateral do barco. Não deu nem para ficar enjoado na viagem por conta da adrenalina. Só queria que o trajeto acabasse logo. E que eu chegasse vivo. Não conseguia nem falar de tão puto que estava com aquela situação. Pensava comigo: como pude ser tão inocente a ponto de entrar num passeio bizarro de barco sem pesquisar mais a fundo potencial perigo que isso podia representar? Minhas costas estavam doídas de tanto impacto e minha mão esquerda começava a dar sinais de que não aguentaria aquela pressão de ficar segurando na lateral por muito mais tempo.

Finalmente Cayo Bolivar

isla bolivar flag

Parabéns, você chegou a Cayo Bolívar

9h55. CAYO BOLIVAR. Com um pouco de dificuldade sai do barco e cheguei até a areia. Não conseguia sentir a minha mão. Demorou uns cinco minutos ou mais para recuperar os movimentos dos dedos. Peguei meu iphone, completamente molhado, na bolsa. A única utilidade para ele no futuro seria como peso de papel.

A ilha tem potencial para ser realmente paradisíaca. Não há nada lá, exceto uma base militar semi-abandonada. É um cenário bem náufrago mesmo, com direito até a palmeiras caídas direto na água. Mas chegamos lá tão estourados do trajeto que não deu nem para sentir aquele efeito uaaauuuu! Saca? E para piorar, por conta da situação da maré naquele dia a água estava mexida diminuindo radicalmente a visibilidade embaixo d´água. Nós que estávamos esperando uma nova Klein Curaçao, ficamos um pouco decepcionados.

10h30. CAYO BOLIVAR. Depois de uns minutos de descompressão resolvemos dar a volta na ilha.

10h35. CAYO BOLIVAR. Fim da volta na ilha,hahaha. Na verdade não sei se esta cronologia ficou fidedigna por conta do tempo que demoramos tirando fotos, selfies, goprozies e afins…vai vendo aqui embaixo:

palmeira ao mar

Todo aquele clichê caribenho a sua disposição

cayo bolivar

guarita claudio

Chega mais, fica à vontade!

cayo bolivar beach

 

mar caribenho

O mar tava mexido e cheio de algas

cayo bolivar lunchtime

Hora de matar a fome!

12h30. CAYO BOLIVAR. A tripulação informa que esta na hora de matar fome, mas o rango era bem meia-boca com condições de higiene nível India. Tenso. Fomos de arroz e peixe frito, deixando os acompanhamentos de lado.

14h30 ADIÓS, CAYO BOLIVAR. Recebemos o aviso que o barco já estava prestes a sair e pensamos com nossos botões “nem fu***ndo que volto lá na frente”. A Claudia já tava pronta para dar um discurso de que tinha problemas na coluna kkk, mas fomos sagazes e entramos logo na canoa barco para garantir os assentos do fundão que estão menos suscetíveis ao impacto das ondas. Contudo, o passeio ainda tinha uma parada prevista em Cayo Pescador, uma ilhota ali pertinho para um outro mergulho. Se dependesse da gente, nem precisaria. Não era muito diferente daonde estávamos e ainda envolveria outro embarque e desembarque. Pra quê, meu povo? Chega…Mas paramos lá, andamos um pouco, fizemos umas fotos. E nem me animei de mergulhar mais, só queria regressar a San Andres logo.

frente pro mar esperando voltar pra san andres

Boladão antes de encarar a volta

 

cayo pescador cayo bolivar

Quando finalmente chegou a hora de voltar, corremos mais uma vez para garantir nossos lugares ao fundo. E foi aí que descobrimos que não tinha jeito de ficar confortável naquela joça de jeito nenhum…Os lugares ao fundo estão situados na linha d’água e por isso são mais estáveis, mas em compensação é o mais perto que se pode chegar da experiência de entrar numa máquina de lavar. É uma saraivada de água na cara sem parar. Em vários momentos não dava nem abrir os olhos. O único alento era que o trajeto era a favor das ondas, sendo um bem menos turbulento que a ida.

Pisamos em terra firme em San Andres, dando graças a deus por termos sobrevivido a essa travessia dos demônios. O trajeto exigiu tanto da musculatura que o abdômen, a dorsal e o trapézio permaneceram doloridos por uns bons três dias até a recuperação completa.

Por essas e outras que acabamos repetindo o mantra: não temos sorte com passeios marítimos.


Para ler mais relatos sobre Cayo Bolívar dá uma olhada nos blogs aqui embaixo:

Viagem de Verdade
Expedição Andando por ai
Viagens e Vivencias
Carpe Diem
Susana Steil

 

Escrito por Claudio Lemos