A torre mais alta da América Latina

A torre mais alta da América Latina

19h54, Santiago. Eu tinha acabado de dar o clique na foto acima – tá ruim, gente eu sei -, quando senti a vibração no chão e pensei comigo: quem são os joselitos que estão correndo e pulando aqui embaixo? Mas os tremores não paravam e a vibe do lugar começou a ficar mais sinistra. Todos se entreolhavam nervosos. Passei o olho ao redor do salão tentando avistar a Claudia. Quando finalmente a encontrei no meu radar, ela estava do lado da Annie, uma senhorinha francesa visivelmente tensa que tentava entender o que o funcionário do local estava dizendo. Com tranquilidade, ele pedia a todos que mantivessem a calma, se afastassem das janelas e que sentassem no chão acarpetado próximo a coluna central do edifício.

Do alto do mirante Sky Costanera, a 300m de altura, é possível ter uma panorâmica da capital chilena. Você avista com facilidade a Cordilheira dos Andes emoldurando a cidade, os Cerros San Cristóbal e Santa Lucia e até o estádio Monumental. Localizado no topo da torre mais alta da América Latina, ocupando a totalidade do 61º e do 62º andar do prédio, a nova atração de Santiago foi aberta a público em agosto de 2015. E por mais incrível que seja a vista, não é exatamente o lugar que você quer estar durante um terremoto. A bem da verdade, nenhum lugar próximo a um terremoto é legal né? Aliás, quanto mais longe da gente melhor. Pena que nem sempre temos esta escolha.

Um terremoto, mas antes…

street art bellavista

As ruas em Bellavista cheias de street art

bellavista ruas

Lembrou um pouco a pegada da Lapa no Rio

grafite

Enfim, algumas horas antes curtíamos o feliz efeito pós-almoço no Cabildo, um restaurante que abriu há poucos meses em Bellavista. Ele fica dentro de um hotel-boutique chamado Castillo Rojo. E a inspiração de lá é a comida dos antepassados chilenos, lá pelos idos de mil oitocentos e alguma coisa. Há toda uma preocupação na ambientação do restaurante, da prataria utilizada e até mesmo do uniforme dos garçons. O lugar é incrível! Havíamos lido uma mini-matéria sobre ele na revistinha do avião e resolvemos checar.

Comemos um cebiche raspado e uma cazuela de almôndegas. De sobremesa, churros e uma leche asada! E o melhor: ganhamos de cortesia uma entradinha super simpática que vinha numa marmitinha em homenagem aos antigos trabalhadores das lavouras. Praticamente a versão chilena do boia-fria. Antes de sairmos, tivemos a chance de conhecer o chef que logo antes estava numa mesa em meio a negociações sobre uma futura participação no masterchef Chile, se é que entendemos direito…Bom, fica a dica pra quem quiser comer uma boa comida por lá.

E essa era só a primeira parte do tour gastronômico do dia, afinal a grande expectativa era o jantar mais tarde no Astrid y Gaston , restaurante que somos fã de carteirinha (ver aqui, aqui e aqui). Era a nossa terceira ida a Santiago e consequentemente a terceira ida ao Astrid y Gaston. Estávamos com a reserva garantida e parecia que seria o grande momento do dia…E até seria, se não fosse o terremoto mas já falo sobre isso mais a frente.

16h54, Vitacura. Depois desse almoço espetacular, fomos bater perna em Vitacura, o equivalente do Leblon/Jardins de Santiago. Com o sol indo embora e a temperatura caindo, a intenção de compra de um café expresso só aumentava. Foi então que enxergamos um café numa esquina em Vitacura. Cafeteria pode significar café, mas além disso pode significar também wifi e um neste caso especificamente também significava um banheiro decente. Para o turista de hoje, este ser humano cidadão-pós-google-altamente-conectado o wifi virou uma commodity tão básica que chega a ser um filtro. Descarta-se restaurantes, lanchonetes e cafeterias que não tenham acesso a internet. Já o banheiro…melhor não discorrer sobre o assunto. Tínhamos ainda algum tempo de sobra antes do jantar. E andávamos sem pressa pelo bairro.

Aos poucos fomos nos aproximando da região conhecida como Sanhattan (Santiago + Manhattan), uma parte da cidade bem corporativa, com altas torres envidraçadas, cafés nas esquinas e esculturas contemporâneas decorando a entrada de prédios e pequenas praças. É um lugar de certa forma insípido, pois poderia muito bem ser o centro de qualquer outra grande cidade: Hong kong, NY, São Paulo, Cingapura etc, pode escolher. Não há nada tipicamente chileno sobre o lugar. Anyway, andando por ali meu radar foi capturado pela torre mais alta do lugar e alguma sinapse no meu cérebro me alertou que deveria ter um mirante lá em cima. Não lembrei na hora, mas havia visto uma foto no instagram tirada do alto do Sky Costanera.

Sky Costanera

O topo do Sky Costanera despontando lá no alto

O Mirante Sky Costanera

A torre faz parte de um complexo interligado ao shopping center Costanera Center. O mirante abriu as portas ao público em agosto deste ano. É uma atração super recente em Santiago. Os ingressos não estavam sendo vendidos online ainda, mas acredito que em breve eles já resolvam esta pendenga. A bilheteria funciona no subsolo do shopping aonde um elevador exclusivo te leva direto ao topo em menos de 1min. Os ingressos custavam CLP 5mil durante a semana e CLP 8mil de sexta a domingo.

O elevador pára no 61º, um andar climatizado todo envidraçado 360º. Espalhados pelo salão há pedestais com binóculos de uso livre e algumas infos adesivadas nas paredes contando um pouco do que é possível avistar naquele setor da janela.

Depois de dar uma volta completa, ainda é possível pegar uma escada rolante para subir mais um nível para o último andar do edifício. Um terraço a céu aberto, mas igualmente protegido pelos vidros que cercam o prédio.

Como estávamos com tempo sobrando até a hora da nossa reserva para jantar então não tínhamos pressa em rodar os dois andares. Quando um casal me abordou pedindo para tirar uma foto, fiz com a cabeça um sinal de sim. E ainda estava enquadrando os dois quando senti a vibração do chão. Meu primeiro pensamento foi: tem alguém (ou alguéns) pulando muito no andar de baixo. Na minha cabeça faria sentido, afinal o escritório onde trabalho fica embaixo de uma academia de MMA então não estranhei a tremedeira de cara.

Mas as pessoas começaram todas a se entreolhar beem assustadas! terremoto-chile-mapa-v1E aí em algum momento cai a ficha de que você está vivendo um terremoto. E o pior, não tem a menor ideia do que fazer ou como agir…Ainda bem que rapidamente surgiu um staff do lugar pra dar as coordenadas. Solicitou a todos que se afastassem dos vidros e sentassem ao chão próximo a coluna central do edifício. Não havia como saber se os tremores intensificariam ou não. Felizmente pra nós, o epicentro do terremoto de 8,4 pontos na escala Richter foi a 243km de Santiago. Se você olhar no mapa ao lado vai perceber que a aérea aonde estávamos fica na área moderada mas isso não diminui o susto nem um pouco.
Enquanto os tremores continuavam, dava para ver pelas janelas as caixas de luz e transformadores explodindo nos postes de luz, deixando as ruas às escuras em diversos pontos da cidade. O próprio prédio do mirante também teve sua energia cortada tendo que ativar os geradores de emergência.

Evacuando a torre

De acordo com o relógio foram cerca de 5min de tremores. Sinceramente não tenho como confirmar, pois nesses momentos o tempo corre de maneira diferente na sua cabeça. Ficava muito atento a fisionomia do staff que dava as instruções. Ele estava o tempo todo com o walkie-talkie grudado na orelha, mantendo a comunicação com os demais funcionários da torre. Como o rosto dele estava calmo, quase tranquilo, fiquei um pouco mais confiante com a situação. O próximo passo dele foi informar a todos que teríamos de evacuar o prédio. Pelas escadas. E-S-C-A-D-A-S! Sessenta andares para baixo! Nesse momento eu gemi sem fazer som. Meu joelho tava (e ainda está) bichado desde julho por conta de uma corrida. Naquele dia mesmo eu já tava mancando um pouco antes de chegarmos no mirante. Mas numa situação dessa não há o que fazer né?

Seguimos em direção às escadas. Para evitar confusões e acidentes, os funcionários liberavam levas de 20 pessoas por vez. Começamos a descer. Eu, Claudia e a Annie, a senhorinha francesa que havia grudado nela. Cada degrau doía. Meu joelho sofria, tadinho. A Annie no alto dos seus 60-e-bléu, descia na frente com Claudia e eu seguia atrás mancando. Degrau por degrau. Andar por andar. 53º, 42º, 30º, 18º, 9º era uma escadaria sem fim. Levamos quase 30min para descer a passo de tartaruga manca.

Quando finalmente chegamos a rua, a Claudia tava com a panturrilha toda arrebentada e mal conseguia andar só que conseguir táxi ali no entorno tava caótico. Os santiaguinos nem pareciam dar importância ao terremoto, afinal eles enfrentam uma média de 20 por ano. Era como descascar banana, já o trânsito…Mó caos, tudo engarrafado. Sentamos um pouco na praça em frente ao prédio que era o lugar de refúgio indicado pelo staff. Aí a Claudia desabou no choro. Ficamos uns minutos ali nos abraçando. Dali em diante podíamos dizer que havíamos sobrevivido a um terremoto.

Pensa que acabou?

Agora éramos os dois mancando pela rua. Aliás, apenas como curiosidade inútil o significado do nome “Claudio” é coxo, ou, em bom português, manco. A origem do nome vem do imperador romano Claudius I que por sua vez era manco. Enfim, os Claudios claudicantes seguiram em frente. Fomos direto pro nosso jantar no Astrid y Gastón que,  pra encurtar estória, digo apenas vá e seja feliz! É um restaurante sensacional!

Voltamos pro hotel pra o (mini)sono dos justos pois nosso voo seria às 7h da manhã então teríamos de madrugar para chegar até o aeroporto. Só que lá por volta de 1h da manhã aprendi na marra que o terremoto não é um acontecimento isolado. Não, não. Depois do tremor principal ocorrem sempre outros tremores que são chamados de réplicas cuja intensidade é sempre menor que o do principal. Caso a intensidade seja maior, este novo tremor mais forte ganha o status de tremor principal. Ou seja, não há garantia nenhuma de terra firme.

E diferentemente do mirante, na madrugada no hotel não havia nenhum staff indicando o que fazer em seguida. Pra piorar , a parede do banheiro do quarto era de blindex. Com as réplicas, os vidros começaram a bater e ficamos com medo deles quebrarem bem do lado da nossa cama.

Passamos por duas réplicas naquela madrugada, o que acabou com qualquer esperança de sono naquela noite. Como dormir depois de um terremoto e duas réplicas? Ligamos a tv pra ver o que diziam. O noticiário local mostrava a aflição das cidades costeiras mais próximas do epicentro que estavam sob alerta de tsunami em breve. A Claudia só pensava em ir embora de Santiago que felizmente estava a salvo daquele perigo.

Acabamos virando a noite esperando nosso táxi. Pegamos nosso voo cedinho e demos adeus a capital chilena, sem saber se um dia voltaremos lá depois dessa aventura.

 

 

Escrito por Claudio Lemos