Foto: Joe Flintham (CC BY-SA 2.0)

Foto: Joe Flintham (CC BY-SA 2.0)

O médico parou ao lado da cama. Olhou sério, ergueu a sobrancelha pra mim e em seguida pra Claudia. Respirou fundo e disse:

– A minha recomendação é que você fique internada por pelo menos 24h.

Putz, caidaço… :(

Duas horas antes naquela mesma madrugada, estávamos dormindo na casa que alugamos no airbnb. Levantei pra ir ao banheiro retirar o excesso de água no joelho. Quem mandou beber cerveja no jantar? Volto pro quarto e encontro a Claudia toda se coçando. Com partes do corpo avermelhadas. Perguntei se ela estava tendo alguma dificuldade pra respirar. E sim, ela disse sim.

Na hora, já passa logo na cabeça um filme com os casos mais escabrosos da Discovery.  Já viram isso? Então, esse era meu medo.  Com meu razoável conhecimento de biologia e medicina – lembre-se que a pessoa aqui é de humanas – tinha certeza que algum quadro alérgico estava em andamento. E se existe ao menos uma moral da estória sobre os casos de alergia é: procure ajude médica o quanto antes.

Sorte nossa estarmos hospedados em Colonia Roma Norte. É um dos bairros hipsters do momento na Cidade do México. Cheio de excelentes opções de bares, restaurantes, galerias de café, etc e felizmente um bom hospital, o Angeles Roma Norte.

O médico recomendou a internação e já passava das quatro da manhã de sábado pra domingo. Domingo é um dia bem diferente dos demais dias da semana no DF. O tráfego no Paseo de La Reforma é fechado para que os pedestres aproveitem. Várias famílias seguem para Xochimilco pra curtir a tarde nas trajineras ao som dos mariachis. O Bosque de Chapultepec também fica lotado. Não veríamos nada disso.

Nosso domingo começaria com um longo trâmite burocrático entre  a seguradora, o hospital e euzinho. Um doce para quem adivinhar na mão de quem estourou a conta? (Ok, parece que haverá reembolso. Continuamos aguardando cenas do próximo capítulo…)

Pimentas, milho e Mal de Montezuma

Trouxemos pra casa em papel timbrado e canetado pelo médico: reação anafilática SEVERA. Este é o diagnóstico oficial. Forte e assustador. Com razão. Não dá pra pensar em qualquer coisa anafilática boa. Imagine que alguém te ofereça um brigadeiro anafilático. Você aceitaria ou sairia correndo?

Sem saber, a gente aceitou. Mas não foi um brigadeiro, e sim uma tlayuda. Vai lendo que a gente te conta o que é a tlayuda….

tlayudas (2)

Tlayuda – guardem este nome!

É bem comum encontrar relatos de turistas no México que passam por experiências, digamos, carinhosas com banheiro. Por supuesto, a comida mexicana poderia ser apelidada como o filme dos irmãos Coen: Onde os Fracos Não Tem Vez.

Definitivamente, não é lugar para quem tem estômago fraco. O café da manhã já começa com frijoles e guacamole. E se tu der bobeira, ainda salpicam algum tipo de chilli em cima. Chilli é uma palavra bem genérica no dicionário mexicano. Engloba toda uma sorte de pimentões e pimentas. Das mais suaves até as mais ardentes que a última porta do inferno.

Não sei vocês, mas os Claudios A-M-A-M comida apimentada. Dobra a pimenta por R$1,00 senhor? Com certeza. Contudo, estando no México a prudência era recomendada. Lembra do Homer doidão de chili? Pois é, não estávamos afim de nada nesse estilo.

Então antes de colocar qualquer comida na boca, sempre perguntámos ao garçom: pica? E antes que você abra um sorrisinho de adolescente feliz pelo trocadilho, fique sabendo: a resposta pra essa pergunta revela se o prato é o ou não picante. Isto, claro, de acordo com os padrões mexicanos, pelo menos duas malaguetas acima do paladar brasileiro.

Então, mesmo que você tenha pedido um pão doce pergunte antes: pica? Não custa nada…depois não vá dizer que a gente não avisou.

taqueria

Além de pimenta, guacamole (abacate) e principalmente o milho são os principais componentes da cozinha mexicana. Se nós utilizamos arroz, lá o carro-chefe é o milho. Mas não pense em espiga ou grãos, o normal é processarem o milho até que ele se transforme em uma pasta que por sua vez dá origem às tortillas, quesadillas, tacos e etc. Talvez por isso toda comida lá tenha gosto de taco. Mesmo quando não é taco, tem gosto de taco.

Quando os espanhóis conquistaram México, o milho já era a base da culinária local entre os astecas. Os europeus aproveitaram a domesticalização do milho e continuaram usando como base de sua dieta também. Só que vacilaram feio. Ignoraram uma parte crucial do processamento do milho chamada nixtamalização. Justamente o processo responsável por liberar a parte nutritiva do alimento. E isso deu origem a lenda sobre o Mal de Montezuma.

Sem o beneficiamento correto do milho, os europeus sofrearam diversos distúrbios/desarranjos alimentares. Foi um festival de náuseas, vômitos e diarréia. E sem tratamento adequado nem mudança na dieta, muitos casos resultaram em óbito. Começa aí a tal lenda de Montezuma, o último imperador asteca que recebeu o conquistador Hernan Cortéz  de braços abertos acreditando que ele fosse a reencarnação do deus Quetzalcóatl.

Hoje em dia, virou lugar comum referir-se ao mal de montezuma como um problema que acomete o sistema digestivo dos turistas que visitam o México. É sério isso!

Frida Khalo, tlayudas e gafanhotos!

Embora seja tentador jogar a culpa no Montezuma pelo nosso pit-stop no hospital, a culpa é toda dela: a tlayuda. Também apelidada de pizza mexicana, a tlayuda é um prato típico da região de Oaxaca (leia-se ôarráca). A diferença é que a base da massa oaxaqueña utiliza milho no lugar da farinha de trigo.

Já passava das dez da noite de sábado. Estávamos mega cansados depois de um dia hiperativo visitando o Museu Frida Kahlo, o El Bazaar Sábado e a Cineteca Nacional (imperdível pros cinéfilos).

Roteirinho para um sábado incrível no DF
Comece o dia tomando café no sensacional El Benefício Café. Peça os huevos al horno e o waffle de frutas vermelhas e depois vá para a Casa-Museu Frida Khalo aonde a artista morou praticamente a vida inteira. Pegue um táxi para almoçar no Bazaar e aproveite para dar uma olhada nas feirinhas de artes e artesanatos por ali. Pegue um táxi de volta até a Cineteca, aproveite pra fazer a pausa pro café e dê uma olhadinha na livraria e na programação especial que deve estar rolando por ali. Pra voltar pra casa, é mole. A estação do metrô Coyocan fica bem pertinho.

A duas quadras da nossa “casa” havia uma filial do Las Tlayudas, um restaurante de comida casual Oaxaqueña. O lugar parecia um pub hipster, mas tinha um quê de simpático. Olhamos o menu escrito a giz no quadro negro. Não falei que era hipster?

A tlayuda especial vinha com tasajo, enchilada, chorizo e chapulines.

A tlayuda especial vinha com tasajo, cecinca enchilada, chorizo e chapulines.

E acabamos escolhendo a tlayuda especial que vinha com quatro sabores misturados. Difícil era saber o que não havia naquele prato. Tinha queijo, guacamole, chilli, carne de porco, carne de vaca e até gafanhoto! Oi?

Pois é, os gafanhotos são um aperitivo super comum no México. No idioma local diz-se chapulin (ou chapulines no plural). Lembra do Chapolim Colorado? Pois é, não contavam com a minha astúciaaa! hahaha

Já havíamos provado os chapulines logo no nosso primeiro dia de viagem quando fomos no Mercado Roma (Calle Querétaro 225, Roma Norte). O mercado fica num imenso galpão, estilo dos Eataly’s de NY e São Paulo, embora seja menor em tamanho. É excelente para beliscar o melhor da comida mexicana. Lá dentro há várias estações de comida de tacos a burguers, pizzas a quesadillas, moles, cafés, tequila, mezcal, chocolate, chapulin e muito mais #ficaadica

 

Salgadinhos e crocantes como bacon, os chapulines são uma delícia. Basta superar o nojinho do inseto. Comemos um monte e até trouxemos na mala um potinho com molho defumado de chapulines.

Suspeitei desde o princípio

Mas afinal o que foi no meio dessa gororoba que desencadeou a alergia? Essa é a pergunta de um milhão de dólares. Os médicos não tem como afirmar ao certo.

O cacauate, a versão mexicana do amendoim servida de cortesia de entrada é uma possibilidade. Castanhas são conhecidas por causar alergia. Os chillis também. Além disso, ainda havia os chapulines dentro da tlayuda.

tlayudas (3)

Cacautes servidos como cortesia

O doutor nos explicou que o fato de já termos comido os gafanhotos antes sem qualquer reflexo alérgico nada significa. O corpo humano pode desenvolver uma alergia tardia ou não reagir ao primeiro encontro com um ser exógeno.

Ainda assim, segundo ele a hipótese mais provável é de que tenha sido o chilli. É o que eu penso também, mas a Claudia já tratou de esconder o pote de gafanhotinhos e nem pensa em abri-lo.

E agora, quem poderá me defender?

Escrito por Claudio Lemos