Uma das maiores motivações de ter ido até a Cidade do Cabo é ver ao vivo o acidente geográfico que nomeou a cidade. O Cabo da Boa Esperança é algo que você aprende desde moleque nas aulas de Estudos Sociais, História e Geografia. O antigo Cabo das Tormentas aonde inúmeras embarcações naufragaram, inclusive a de Bartolomeu Dias, o primeiro navegante a contornar o cabo e renomeando-o para o nome atual, Cabo da Boa Esperança. É até uma ironia histórica, Dias ter naufragado e falecido justamente no cabo que o deixou famoso, mas enfim curiosidades históricas a parte, o fato é que pensar em visitar o Cabo da Boa Esperança é deixar sua memória solta de volta aos tempos de escola aonde seu universo não é muito maior do que o bairro aonde mora e pensar um ir até a África é um passo muito maior que o Neil Armstrong deu para a humanidade na lua. Como aprendemos apenas por meio de livros de história (a internet só virou realidade para mim no fim da adolescência) e pela oratória dos professores, acabamos por idealizar aquele lugar. Não de uma maneira fantasiosa, mas acabamos criando uma figura mental do que imaginamos ser o Cabo e do que aquilo representou na História.
Munido desta curiosidade histórica e aliado ao fato de que adoro viajar para conhecer novos climas, relevos e geografias (entre outros mil fatores que me motivam a viajar), bati o martelo sobre vir para Cape Town também para poder conhecer o tão famoso Cabo da Boa Esperança.
Caminho para o Cabo e parada em Boulders Beach
 
É bem fácil chegar ao Cabo, saindo da Cidade do Cabo. Juntamente com dois novíssimos amigos que fiz no albergue, alugamos um carro com gps – maravilhas desse mundo novo- , e fomos em direção ao Cabo. A viagem demora cerca de 1h, passando por uma belíssima estrada costeira e sinuosa, imprensada entre o mar e a montanha. A estrada é bem sinalizada e o asfalto é ótimo. Vá na boa. No caminho ainda é possível dar uma paradinha em Simons Town, um vilarejo que seria totalmente dispensável se não fosse a existência da colônia de pinguins em Boulders Beach.
Seguindo a estrada pela direita, você chega mais perto dos pinguins
É uma graça ver aqueles bichinho todo desengonçado andando e interagindo com seus companheiros. Como é uma reserva, há uma taxa de entrada para chegar na colônia, porém se você não tiver afim de pagar e nem quiser ficar junto com uma horda de turistas aboletado numa grade a poucos metros dos pinguins, dispense a bilheteria e siga pelo caminho a direita. Vá andando por uns 10 minutos e chegará numa parte da praia aonde os pinguins ficarão literalmente aos seus pés e sem ninguém para te importunar.
Os babuínos, um capítulo a parte
Após Boulders Beach e seguindo em direção ao Cabo, tem várias placas “Beware – Baboons are wild animals”, alertando para o perigo dos babuínos. Parece brincadeiras mas o negócio é sério mesmo. Os babuínos tem dentes fortíssimos e podem até matar um humano e como o parque aonde está o Cabo recebe muitos visitantes, os babuínos meio que já acostumaram com a presença dos humanos e principalmente já descobriram que eles trazem comida dentro dos carros e é aí que mora o perigo. Deixar os vidros abertos podem ser um “convite” para que os macaquinhos entrem inadvertidamente na sua vida. Eles são rápidos o bastante para pegar bolsas, sacos, mochilas e etc e desaparecer com isso mata a dentro. Os guardas-florestais de lá alertam para que não se tente interagir com os bichos, pois eles podem ficar agressivos e a mordida de um macaco não é exatamente algo que você queira descobrir na pele. Sério mesmo, pode ser até fatal.
Um amigo meu me contou uma história que ilustra bem isto. Ele esteve no parque no meio de 2009 (junho ou julho) e na estrada que corta o parque viu um grupo de turistas numa van parada tentando se aventurar pela mata. Acontece que alguém deixou a porta aberta da van e numa fração de segundos um babuíno se aproximou e pegou uma mochila do grupo. Para azar dos babuínos, a mochila não tinha comida. E para azar ainda maior dos turistas, na mochila estavam simplesmente os passaportes do grupo. Um membro do grupo, munido de um espírito mais aventureiro, pegou uma lanterna e se preparava para entrar na mata disposto a recuperar seus documentos quando o guarda florestal interveio “This is Africa, you’re gonna be killed”.
Babuínos, sempre sem cueca, na beira da estrada que dá acesso ao Cabo
Já sabendo desta história, fiquei bem precavido em relação aos baboons. Quando apareceu um na beira da estrada, até tentei tirar uma foto daquela bundinha feia, mas acabou não ficando boa. Pé na estrada, em direção ao cabo, que afinal era a missão do dia.
Entrando no Cabo
Na entrada do parque aonde está localizado o Cabo, há uma guarita/pedágio aonde você ganha um mapa do parque, após pagar a entrada. A cerca de 7km da entrada fica o Cabo propriamente dito. Há um farol no alto de um morro e a praia Dias, aonde Bartolomeu Dias foi atacado e morto por canibais, após seu navio ter naufragado ali na praia. Leve repelente e protetor solar, pois não há muita sombra e os mosquitos sempre importunam. Para quem não tem mais idade ou muita preguiça, pode pegar um funicular que leva desde a parada dos automóveis até quase o pé do farol. Mas leve calçados confortáveis, pois dá vontade de explorar um pouco mais a região e fazer umas trilhas por ali. São todas trilhas fáceis e não levam mais que 1h (ida e volta), e de quebra você vai poder tirar altas fotos.
O farol tem um acesso por funicular, pra quem não está afim de uma caminhada
Eu e meu amigo backpacker com a praia Dias ao fundo
Para chegar naquele farolzinho lá embaixo, só caminhando mesmo.
 
A foto pra turista nenhum botar defeito
Na parte mais baixa, ainda perto do farol, há a praia Dias que também é acessada por automóveis. Lá tem uma plaquinha bem turistona, aonde, é claro, você vai tirar aquela foto-comprovação de que visitou o Cabo. A praia é superagradável e a água é muito gelada. Então tomar banho ali só para masoquistas mesmo.
O passeio ao Cabo (com Boulders Beach) gasta boa parte do seu dia. Eu saí de Cape Town por volta das 10h30 e só voltei lá para as 19h. E vale muito a pena, programar o dia para conhecer. É um must see da Cidade do Cabo.
Escrito por Claudio Lemos