Arredores de San Pedro de Atacama. O motorista do ônibus avisa que estamos chegando e por isso precisa apagar todas as luzes. Algumas luzes bem fraquinhas margeiam o caminho guiando até o local de desembarque. Saímos do ônibus ainda tentando nos acostumar com o breu total. Mal conseguimos distinguir a cabana quando então surge uma figura encapuzada saindo do seu interior.

Faz frio, muito frio a noite no deserto. Tremíamos, mesmo vestindo nossas térmicas por baixo do casaco e do jeans. Não adianta, carioca é um bicho inquieto abaixo dos 20ºC. Antes que pudéssemos olhar o céu absurdamente estrelado acima de nossas cabeças, o homem encapuzado disse “Hello” e nos conduziu para uma clareira a poucos passos da cabana. Pediu que fizéssemos um semicírculo à sua frente. Nosso tour astronômico começaria em breve, tão logo o ônibus deixasse o local para buscar o próximo grupo.

A escolha certa para ver estrelas

Nós que moramos em cidades grandes raramente temos a chance de observar o céu a olho nu por conta da interferência das luzes das casas, apartamentos, postes, neons, outdoors e sei-lá-mais-o-quê. Daí nosso interesse mais que justificado em fazer o tour astronômico no Deserto do Atacama. Um lugar abençoado pela natureza com cerca de 300 noites sem nuvens por ano. Pra quem quer observar o cosmos é um parque de diversões literalmente a céu aberto!

Nossa pesquisa prévia apontava que era tranquilo deixar para agendar os tours lá diretamente em Atacama. Confesso que fiquei um pouco pé atrás. Anos atrás, quando fomos a Ushuaia, este tipo de estratégia acabou fazendo com que perdêssemos o tour da Estância Haberton aonde ficavam os pinguins. Por outro lado, sendo um destino quase exclusivamente turístico,  a chance que não encontrássemos vagas nas diversas operadoras que disputam os turistas em San Pedro era beeem pequena. Foi o agente de viagens que nos vendeu o pacote do Salar do Uyuni – aguarde que ainda vamos escrever um post sobre essa viagem – que nos deu uma dica de ouro e que repassamos pra quem quiser aproveitar: o melhor tour astronômico realizado em San Pedro é o da Space Star Tours. Sem sombra de dúvidas, a melhor agência para este passeio.

Primeiro, porque este é único tour vendido na Space. Ou seja, é realmente o business deles. E segundo, por conta do homem encapuzado que mencionamos lá em cima. Nós remarcamos este tour duas vezes só pra garantir que ele seria nosso guia. Mas quem era esse homem misterioso? Calma, já chegaremos lá.

Inicialmente havíamos escolhido o tour em espanhol, porém devido à incompatibilidade da nossa agenda dos próximos dias com os tours da Space, o jeito foi embarcar no tour em inglês mesmo. Estávamos um pouco reticentes pois astronomia já seria um assunto árido mesmo se o tour fosse conduzido em português. Mas aí o agente da Space deixou escapar a informação que mudou completamente a nossa expectativa. Após perguntar se topávamos tour inglês e olhou para gente e disse: “Que bom vocês terão um guia excelente! Ele já fez até programas no Discovery Channel!” Oi? Como assim?

Isso tudo acabou criando uma expectativa enorme pro tour. Fizemos a pré-reserva, porém precisaríamos retornar na Space no dia do tour até as 15h para efetuar o pagamento. Nossa observação astronômica estava pré-marcada para às 23h, porém quando iríamos efetuar o pagamento descobrimos que nosso guia só faria o tour das 22h. Depois de alguma conversa acabamos mudando o horário e antecipamos um pouco nosso jantar para garantir o tour com guia pica das galáxias, com perdão do trocadilho.

Um showman à parte

Se você me pedir para descrever nosso guia, não saberia nem por onde começar. Pra ser sincero não sei nem se consegui ver o rosto dele. Ele estava completamente encasacado e de capuz. Pra aumentar o mistério, ele usava uma lanterna iluminando seu rosto debaixo pra cima produzindo muitas sombras num ambiente parcamente iluminado. Mas faz parte do show, aliás o Leslie, ou melhor, Les é um perfeito entertainer. Tem o timing certo, típico de quem está acostumado a contar uma história do início ao fim. A palestra dele consegue ao mesmo tempo ser extremamente informativa, mas nunca tediosa, pois volta e meia e ele encaixa uma piadinha, um trocadilho ou outra graça qualquer. É um cara que sabe reter a platéia. De origem canadense, ele contou felicíssimo que deixou pra trás sua terra natal para vir morar em San Pedro de Atacama onde céu estrelado é quase sempre uma constante. Tanto isso é verdade que a região de San Pedro  de Atacama foi o lugar escolhido para receber o ALMA, o maior e mais alto observatório astronômico do mundo. Pra quem tiver interesse, a visitação é gratuita basta agendar com antecedência.

Les nos recepcionou na saída do ônibus e rapidamente nos conduziu ao semicírculo onde explicou como seriam as três etapas do tour. Funciona da seguinte maneira: primeiro há uma palestra a céu aberto, depois seríamos levados aos telescópios e o final era dentro da cabana com uma sessão de perguntas e respostas embaladas por uma bebidinha quente. Café, chá ou chocolate quente, à sua escolha.

A palestra é bem didática, cheia de informação. E quando você menos espera, o Les saca uma caneta-laser megablasterpoderosa e risca o céu provocando aquele efeito “Uau”. E é supermaneiro, pois conforme ele vai explicando, usa a caneta pra mostrar no céu o que está sendo dito. Por exemplo, ele nos ensinou a enxergar a via-láctea, uma enorme mancha esbranquiçada que se espalha sobre nossas cabeças. Deu uns quatro riscos no ar e voilá, lá estava claramente a constelação de escorpião.

Contou ainda que os planetas diferenciam-se das estrelas, pois estas estão sempre piscando enquanto os primeiros emitem uma luz constante. E o mais impressionante nessa etapa pra mim foi quando ele nos apontou aos satélites. Sabe estes satélites que construímos e colocamos no espaço pra transmitir telecomunicações? Então, num determinado momento ele indicou uma direção usando o laser e disse que em breve veríamos uma luz piscar por ali. Foi uma piscada rápida, e na sequência ele seguiu riscando o céu com seu laser até outra região escura. Disse que breve o mesmo satélite passaria ali. Rá! Foi certeiro! Logo em seguida vimos uma luz piscar e apagar bem na região aonde ele apontou. Fiquei me sentindo criança que não entende como o mágico realiza seu truque… Demais!

Céu estrelado, Saturno e outros astros

A segunda etapa do tour é um observatório a céu aberto. Dez telescópios, já calibrados em diferentes posições, eram dispostos ao público para observação. Antes de liberar as crianças (nós, no caso) para brincar no play, Les passeou com o grupo pelas dez posições explicando o que veríamos em cada um deles. Um apontava para estrelas-irmãs, outros pra uma supernova, um outro pra Saturno e por aí vai. Caso você esquecesse para aonde apontava o telescópio, era só chamar o Les que ele vinha rapidinho tirar sua dúvida.

Depois de quase uma hora no sereno, passando frio para ver as estrelas nosso tour chegava a fase final. Rumamos pra dentro da cabaninha. Lá dentro era tão somente um pouco mais iluminado que o lado de fora. O grupo toma assento e logo são servidas as bebidas quentes. Nunca antes um chocolate quente foi tão reconfortante. Algumas pessoas arriscam umas perguntas tímidas que Les, sempre simpático, responde numa boa. Como disse antes, o assunto já seria difícil mesmo em português. É muita informação técnica misturada com muita matemática. Não custa lembrar que as distâncias são medidas em ano-luz. É um assunto que requer boa dose de abstração para compreender, ainda assim saímos de lá completamente encantados.

Como disse uma amiga nossa: eu vi saturno, mas não deu pra instagramizar 😉

Escrito por Claudio Lemos