Por conta do jetlag, o sono não chegou . Dormi por volta das 23h, mas acordei 1h30 da manha e fiquei em modo screen saver durante toda a madrugada esperando chegar a hora de ir tomar café da manhã, que é bem junkie para o padrões brasileiros. Claro que dá pra salvar, eu fiquei no suco de laranja, iogurte com granola, crossaint e ovo mexido, mas pra quem quiser colocar o trato instetinal à prova tem ainda salsichas, feijoes, pork, steaks, molhos chilli e outras paradas estranhas. Dá pra almoçar se quiser, mas eu segurei a onda e fui nos certeiros pra não dar mole pra nenhum piriri.

Devidamente alimentado fui a recepção me encontrar com o guia Mthandeni – passei o dia inteiro tentando aprender a pronunciar o nome dele, e acho que até agora não peguei o jeito – que iria me guiar por J’burg e Soweto. Como ninguém mais apareceu, a conta do passeio ficou toda pra mim. Foram 890 rands (divide por quatro para ter o valor aproximado em reais), mas enfim é a única coisa que queria ver na cidade e tava com o dia livre. Então sem chororô.

No caminho da nossa primeira parada, o guia vai explicando sobre as províncias existentes na África do Sul e sobre os onze (!) idiomas oficiais do país. O mais legal, de ouvir pelo menos, é o Xhosa, que tem um fonemas que se assemelham a um clique, que achei impossível de reproduzir. O jeito é continuar se comunicando em inglês mesmo, apesar de que o sotaque local é bem peculiar e as vezes difícil de entender.

A primeira parada é o Constitution Hill, um must-see da cidade. No alto da colina existem construções que mudaram de função ao longo do tempo. Era um forte, que virou hospital, que virou prisão e que hoje abriga a Suprema Corte do país. Ou seja, um lugar cheio de simbolismos e muita história para absorver. Na entrada do prédio da corte há onze frases, cada uma com um idioma oficial da nação, fortalecendo o sentido de união e democracia. A entrada principal é toda entalhada em madeira com os 27 artigos da constituição do país. E há até inscrições em braile para os cegos poderem ler também. Por dentro o prédio utiliza ainda boa parte dos tijolos originais de quando o prédio abrigava a prisão para que não sejam esquecidas as injustiças ali cometidas. E a corte em si, evoca os antigos rituais de julgamento que eram realizados embaixo das árvores em tempos mais remotos. Assim a sala tem um teto que evoca a entrada de luz como se fosse por entre os galhos, o tapete é malhado de branco e preto como se as folhas projetassem sombras e há um espaço vazado em toda a extensão de uma parede de modo que quem está de fora pode observar o que acontece dentro da corte, logo não há como encobrir a verdade do julgamento.

A Constituição toda entalhada na madeira
 

No prédio anexo o interior da prisão foi mantido e hoje transformado em museu que retrata os tempos que o apartheid vigorava e as pessoas eram mantidas separas até mesmo dentro da prisão. Ali os detentos (indians, coloured e blacks) tinham refeições diferentes, ficavam em celas diferentes (e superlotadas) . Ghandi, por diversas vezes ficou encarcerado ali. A visita ao Constituion Hill é incrível, vale muito a pena.

Saindo de lá, rodamos um pouco pelo centro de Jburg, que lembra o centro de qualquer cidade, exceto pelo fato que vi poucos onibus nas ruas, mas vai ver era por conta do horário. Ainda no centro, subimos no arranha-céu-mor do continente africano, o Top of Africa, que tem cerca de 230m (50 andares) e possui uma vista única panoramica da cidade. Mas não pense que há grandes coisas para se observar dali. Tirei fotos da Ponte Nelson Mandela que interliga o norte da cidade a downton e também do estádio que foi palco da copa das confederações ano passado.

Na entrada do Top of Africa

Descendo o elevador, entramos no carro para finalmente rumar a caminho do Soweto, que é uma township a cerca de 20km do J’burg. Não sei exatamente traduzir township, é algo maior que um bairro, mas ao mesmo tempo não é chamado de cidade. Enfim, fica a pergunta pra quem quiser esclarecer. O Soweto ganhou fama internacional por conta dos assassinatos de jovens que protestavam pacificamente contra a obrigatoriedade do ensino do Africaner nas escolas, durante o regime Apartheid. A partir destes conflitos que viraram notícia no mundo inteiro é que o apartheid começou a ruir.

A tal township é bem bonita e agradável de se andar, as ruas são todas asfaltadas, bem cuidadas e sinalizadas. Existem quatro tipos de moradia no Soweto : as elephant houses que tem este nome por causa do teto que remete imediatamente ao paquiderme; as matchboxes que são os modelos mais simples e pequenas (1 quarto, 1 sala de jantar, 1 cozinha e o banheiro fica do lado de fora da casa); as government houses que são maiores que as matchboxes e são feitos pelo governo e pagas em longas prestações pelos moradores; e por último tem as shacks (que é o mais se aproxima do termo favela no Brasil) que são quartos construídos com materiais baratos normalmente nos fundos das matchboxes para trabalhadores que só precisam de um teto perto do local de trabalho e enviar parte da renda para a família que vive mais longe de J’burg.

O Soweto é famoso também por abrigar a única rua do mundo que foi residência de dois ganhadores do Nobel da Paz, a Vilakazi Street, que ainda hoje é o endereço oficial do Arquebispo Desmond Tutu. Nelson Mandela acabou se mudando de lá por conta da incomoda presença da mídia que sempre o assediava.

Perto da Vilakazi St, está o Hector Pieterson Museum, criado em memória aos eventos que deram início a revolta do Soweto, cujo marco histórico foi o assassinato do estudante Hector Pieterson , de 13 anos idade. Em frente ao museu, no local aonde ocorreu o assassinato há uma pedra fundamental que narra os fatos históricos e uma escultura de onde escorre água por microcanais, representando o sangue derramado dos cento e setenta e dois mortos no conflito. Como todo bom museu que sepreze, há uma gift shop na saída. Aproveitar pra comprar umas lembrancinhas africanas.

O passado conflituoso do Soweto pode ser avistado até mesmo dentro da igreja. Na Regina Mundi Church ainda existem marcas de balas no teto em uma ocasião que a polícia entrou na igreja para dispersar a reunião que a população fazia lá dentro. Até o mármore do altar foi quebrado por um rifle policial na ocasião. Hoje, os vidros novos e mosaicos foram instalados como presente dado pela primeira-dama polonesa, mas pra quem quiser ver os vidros antigos cheios de buraco de bala ainda estão lá.

Já na hora do almoço fomos a um sheebeen, que é um misto de pensão/boteco que serve comida caseira/típica, mas também vende bebida alcóolica. Provei uma cerva sul-africana tipo larger, deliciosa chamada Castle, e apesar de não estar com fome me juntei ao Mthandeni na mesa e resolvi provar as iguarias locais. Apesar da cara não ser lá atrativa, até que a comida é gostosinha e dá pra perceber que comida caseira sempre tem gosto de comida caseira, mesmo que não seja gastronomia que você está acostumado.

Almoço na sheebeen. Tem coragem?
Escrito por Claudio Lemos