Andar de transporte público é uma viagem antropológica e tanto. Dá pra conhecer mais dos hábitos dos moradores e até mesmo interagir com eles. Pena que nem sempre esses encontros sejam amigáveis, né? No episódio de hoje a gente conta umas estórias engraçadas envolvendo um pedinte agressivo, uma criança mimada e um japa que estava na hora errada, no lugar errado.

Preparados? Mind the gap e vem com a gente!

Próxima parada: Times Square 42nd st, NY!

Metrô de NY

So what?

NY, maio de 2009. Já passava das nove da noite. Estávamos cansados. Exaustos. Foi um daqueles dias longos e hiperativos que só NY pode oferecer. Provavelmente quem mora lá, deve apenas pensar “just another ordinary day”. Mas você, turista, não. Você acordou cedo, entrou no Starbucks da esquina, forrou a barriga com um espresso e um bagel e não parou de andar o dia inteiro. Rodou pra cima e pra baixo, entrou em lojas, viu exposições, obras de arte e muito possivelmente interagiu com algum dos humans of new york.

Difícil lembrar depois de tanta excitação. As cores luminosas da Times Square piscam sem parar. A cabeça fica complemente atordoada com o overload de informação. Melhor procurar um restaurante pra jantar mais afastado, em algum lugar menos frenético. Em NY, será?

Bom, adiante na esquina havia a escadinha que levava ao metrô. Mesmo quem nunca pisou na cidade sabe como ela é. Está em tantos filmes e seriados que é possível reconhê-la sem ao menos ter estado lá. Como era mesmo aquele lance de hiperrealidade do Baudrillard? Deixa pra lá…a cabeça já tá muito cansada pra filosofia a essa altura.

entrada metro

Entrada do metrô de NY| Foto: Jeffrey Zeldman/Flickr (CC BY-NC-ND 2.0)

Descemos os degraus e fomos em direção à catraca. Havia um homem zanzando por ali. De longe, saquei que era um pedinte. Certamente ele iria abordar a gente.

Ao contrário da Claudia, tenho quase zero disposição pra interagir com transeuntes. Uma vez que meu radar identifica a situação, eu deixo o piloto automático assumir e passo batido respondendo qualquer coisa rispidamente pra não me envolver na ladainha. Mas a Claudia é outra história…

Assim que estávamos nos aproximando, ele veio e se dirigiu a ela:

– Could spare me some change? I need to buy a subway ticket.

Você não precisa nem saber inglês pra sacar que ele queria um dinheiro. Pra mim nem interessava o motivo. Já estava com meu metrocard na mão e nem dei bola pra ele.  A Claudia não tinha prestado atenção direito e tentava entender o que ele estava dizendo para dar uma desculpa mais elegante. Educadamente ela disse a primeira coisa que lhe veio à cabeça:

– Sorry, I´m not from here…

Normal, né? Aqui no Brasil fica subentendido. A pessoa não é daqui, não vai poder te ajudar. Tipo, boa sorte com outra pessoa. Mas NY sendo NY, a coisa é diferente. O pedinte olhou feio e respondeu na lata, daquele jeito tipicamente nova-iorquino:

So what??? So what you not from here?

Foi agressivo o cara. OK, valeu amigo. Boa sorte aí com essa delicadeza na hora de pedir dinheiro pros outros. “Senta lá Claudia” que o metrô tá chegando.

“Stand clear from the closing doors, please”

Próxima parada: Dubai Marina, Dubai.

Bônus – Saca só essa entrevista com Charlie Pellett, a voz do metrô de NY.

Metrô de Dubai

“Eu não quero morar em Bahrein. Eu quero morar em Dubai”

Dubai. Fevereiro de 2013. Dubai não é exatamente uma cidade amigável pro transporte público. A rede de metrô é pequena. Basicamente uma tripa que acompanha uma das principais vias da cidade. Ao menos conecta a região aonde estávamos até a parte antiga da cidade aonde ficam os souks, os mercados de rua árabe repletos de especiarias e vendedores insistentes. A gente estava curioso pra ver como funcionava o metrô cujo trem é controlado à distância, completamente automatizado.

Depois de andar umas três quadras debaixo do sol escaldante, já um tanto quanto irritado comigo mesmo por não ter pegado um táxi (que é ridículamente barato em Dubai), chegamos a estação de metrô de Dubai Marina. E claro que Dubai sendo Dubai, tem metrô extravagante. A arquitetura da estação remete à cabeça do Alien, o 8º passageiro. Uma construção, no mínimo, exótica. Olha só:

Metro Station @ Dubai Marina|Foto: Guilhem Vellut/Flickr (CC BY 2.0)

Guilhem Vellut dubai marina

Dubai Marina Metro Station @ Dubai Marina | Foto: Guilhem Vellut/Flickr (CC BY 2.0)

catracas

As catracas do metro de Dubai|Foto: Riaz Kanani/Flickr (CC BY-SA 2.0)

Como não há condutor, o lugar que seria destinado à cabine do condutor é parte integrante do vagão (vide o vídeo mais acima). Logo os passageiros podem ter acesso à visão que normalmente é exclusiva da cabine de comando. Assim que entramos no trem fomos imediatamente atraídos praquela posição. Eu e a Claudia nos posicionamos ali, apoiando de leve as mochilas na bancada que antecede o vidro frontal.

O Burj Khalifa despontava logo adiante no horizonte enquanto o frescor do ar-condicionado recuperava a dignidade da caminhada no sol.

Nem reparamos direito que trem havia parado, mas mal as portas abriram, um moleque mal-educado entrou correndo e simplesmente escalou a bancada ignorando completamente a nossa existência e sentou bem aonde nós estávamos apoindo as mochilas. A mãe da criatura chegou logo em seguida, mas nunca passou pela cabeça dela se desculpar pela intromissão do moleque. A gente entortou o olho, mas como não queríamos perder a vista, ficamos ali na redondeza.

O moleque além de malcriado era complemente mimado. Chatíííííssimo. Enfim, os dois estavam em Dubai provavelmente por conta do trabalho do pai da criança mas eles moravam no emirado vizinho, o Bahrein. Pelo menos foi isso que deduzimos da conversa entre os dois, porque do nada, totalmente out of the blue, o moleque entrou numa DR com a mãe dizendo que queria porque queria morar em Dubai.

E começou a espernear e chorar:

– I don´t wanna live in Bahrein. I wanna live in DUBAI!

Que criança mimada insuportável! Foram umas três estações seguidas chorando e a mãe negociando toscamente as vontades do moleque. Quer criar um monstro? Só procurar pela dondoca aí. Vai ganhar um certificado internacional! Esse moleque virou uma piada interna nossa. Quando não queremos alguma coisa lembramos dessa história fatídica.

Próxima parada: Ueno, Yamanote Line (Tokyo)

Metrô de Tokyo

Segura o riso

Tokyo. Março 2014. No pouco tempo que tivemos pra fazer o dever de casa pré-viagem a Tokyo enxergamos uma sacada que seria fundamental: ficar próximo à Yamanote Line, a linha circular de trem que está incluída no JR Pass e passa por boa parte dos lugares de interesse turístico como Shinjuku, Shibuya, Ueno, Akihabara e ainda liga com as principais estações da cidade como a Tokyo Station e Shinagawa, de onde partem os shinkansens e os trens pro aeroporto.

Pegamos o trem da Yamanote line todos os dias em Tokyo. E o trem japonês é de um previsibilidade ímpar. Você chega na estação e os japoneses já estão ordenadinhos na plataforma. Fazem duas filas indianas nas laterais da porta de acesso ao vagão. Quando o trem pára, esperam os passageiros que estão desembarcando sair para então começar a entrar. Não tem corre-corre, nem empurra-empurra. Aliás, o único que pode legitimamente empurrar alguém por lá é o agente da estação. Mas isso só rola na hora do rush. Fora isso os trens e metrôs são super calmos e pacíficos. Ninguém conversa. Ninguém fala ao telefone. Ninguém escuta música sem headphone. Quase todos os passageiros estão mexendo no celular, enviando mensagens ou checando rede social. Mas ninguém dá um pio. A princípio a gente até estranha aquela calma toda, mas entramos no jogo rápido. Quer dizer tentamos pelo menos…

Viemos caminhando de Ginza até a Yurakucho station para pegar a Yamanote Line. Separamos este dia para ir até o parque Ueno, um lugar super aprazível pra passear e que, de quebra, ainda possui 3 museus pra visitar, incluindo o Museu de Nacional de Tokyo. Chegamos na plataforma e como manda o figurino, entramos na fila indiana. O trem chegou, esperamos a massa sair e adentramos o vagão. Os assentos estavam todos ocupados e os japoneses cada qual vidrado no seu celular.

por dentro do trem na Yamanote Line

Os japas vidrados no celular

Eu carregava uma mochila pesadona por conta das lentes e da câmera fotográfica quando tive a brilhante ideia de colocá-la no bagageiro em cima dos bancos. Claro que deu ruim né?

mala no bagageiro do metro

Claro que não foi a melhor ideia que já tive…

Eu apoiei a mochila ali em cima tranquilamente e segurei no corrimão conforme o trem se afastava da estação. O silêncio imperava no vagão. Eu e a Claudia sussurrávamos baixinho alguma coisa sobre o museu que estávamos indo visitar. Não deu nem tempo de agir quando meu campo de visão detectou um objeto preto despencando de cima do bagageiro. Eu carregava aquela mochila há alguns dias e sabia perfeitamente que ela era pesada. Ela era beeem pesada. Coitado do japa que tava sentado embaixo dela. Ele não teve nem ideia do aconteceu. Distraidaço, ouvindo sua musiquinha no celular, nunca podia imaginar que seria chambado™ por uma mochila meteórica, um verdadeiro torpedo em forma de bagagem. Ele levou a mão na cabeça na hora e eu devo ter pedido uns trezentos “I´m sorry” com aquela cara de turista lambão que fez merda.

Pior é que o japonês é tão condicionado a não fazer barulho no metrô que ele nem soltou um gemido. Deve ter doído pacas! Mas o japa segurou a onda legal. Mordeu o beiço e foi coçando a cabeça, puto, com cara de ódio, como se fosse proibido reclamar das mochilas voadoras que caem sobre sua cabeça. Coitado.

Depois do meu milionésimo pedido de desculpa, bateu uma vontade involuntária de rir daquela situação. Lembra daquele apresentador de tv holandês? Eu tava assim quase explodindo mas acabei sendo salvo pelo gongo quando o trem chegou na estação de Ueno e descemos do trem. Aí o riso correu solto! Crise que durou uns 15 minutos ininterruptos.

 

E você tem uma estória legal pra contar? Escreve pra gente nos comentários :)

Escrito por Claudio Lemos